Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

Sons de Outono

Queria ser capaz de perceber por que mergulhaste na concha do isolamento, naquela madrugada fria de Outono, que anunciava, no cântico sensorial, a queda das folhas dos plátanos nas minhas mãos.
Por que não sou capaz de olhar para o alto, para as copas das árvores, e perceber como, ano após ano, a pele encarquilha no nervo frágil para mirrar e morrer, tombando na solidão de uma calçada que tão seguro de mim calquei quando caminhava a teu lado?…
Por que não fui capaz de olhar o papel onde reescreveste os afectos, as coordenadas da viagem que a calçada empreende sobre nós ou a incapacidade de partir que empreendemos sobre ela?...
Queria acreditar que vestiste o oráculo do silêncio porque não me quiseste ver morrer… porque quiseste não morrer… E, todavia, agarrando a noite no teu novelo fechado, levas contigo o dia, também, sem saberes que permaneço do lado de fora, imóvel, hirto, sem abrigo, mais morto do que receaste que algum dia pudesse ficar…
E tu? Por mais que o negues, apenas um corpo vergado sobre os músculos, acreditando que a viagem há-de voltar a percorrer-te… mesmo que só…

2 comentários:

LauraAlberto disse...

Amigo:
toda a dor que passamos em silêncio memso que mergulhados em solidão existe sempre alguém que ausente está presente.
Abraço

Anónimo disse...

O pior da viagem é quase sempre ter de ser feita a dois. Ah, como invejo os que sabem viajar sós, acolhendo aqueles que, sem pedir, sem se anunciar, entram na carruagem...