Sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

Despedida

Cumpre-se este mês dois anos que este blogue deu início às minhas viagens plurais. Tinha acabado de publicar o meu primeiro livro de poesia e senti que era importante, num momento em que a voz poética se alçava para lá das páginas e da tinta que lhe contornava o rosto, ir dando a conhecer alguns dos planos, projectos e criações que fosse conseguindo.
A viagem foi uma experiência inesquecícel. A palavra alimenta a palavra que, por sua vez, sacia a sede de vozes secas e sedentas de canto, de verso, de poesia. Foi neste jogo verbal, mas sobretudo emocional, que eu, Jorges (e o plural é intencional), me fui desnudando, sempre a coberto do filtro que o verbo nos oferece... mas sempre exposto, também, à minha maior fraqueza: as emoções, o sangue vivo escorrendo numa pele que, na maior parte das vezes, tolda a razão e conduz ao mais recôndito esconso da fragilidade humana, da minha fragilidade.
Nesta viagem, com mar e sem ele, fui Jasão e Ulisses, domando as ondas e rasgando marés; por detrás delas, acabei sendo, também, o objecto da fúria divina que me castigou pela ousadia de querer tocar o que esteve sempre vedado aos sonhos humanos.
Cruzei-me com embarcações, com marinheiros e marés, com gente que passava e gente que ficava, toquei vozes, mãos, rostos e emoções, umas conhecidas, outras que me foram desveladas pela sede incessante de viajar para ser.
A viagem encerra um ciclo; há que voltar ao início para poder voltar a viajar, para poder voltar a nascer, para ser capaz de voltar a ser. O desejo de o conseguir corre, líquido, nas minhas veias... O medo de falhar não desapareceu, todavia... Mas, porque para renascer é preciso morrer, entrego este blogue à memória e ao carinho dos que por cá passaram, dos que por cá circum-navegaram, circum-viajaram.
Um abraço a todos eles com o meu imenso obrigado!

Jorge
Data do fecho do blogue: 03 de Dezembro de 2009

Termino como comecei:
"Viajo para escrever
Escrevo para recordar
Recordo para sonhar
Sonho para não deixar de viver..."



Pink Floyd, The Final Cut

7 comentários:

Anónimo disse...

Acredito sensivelmente que nós mortais precisamos beber deste néctar precioso que é a escrita. Infelizmente, nem sempre somos entendidos, tendo em vista que ler alguêm não é ler seus olhos, do mesmo modo que ouvir e ver alguêm é ler sua alma...
A escrita é uma lâmina afiada que pode cortar, desamarrar e salvar-nos, como também pode ferir e matar-nos.
Fazer-se conhecer através da escrita não é pra qualquer um. O autor que se desnuda através dela, tem de ter nervos de aço, mas coração de pescador... Todavia, enfrenta marés violentas, outras mar taciturno...
Nem sempre se pode colher redes abundantes, pois que o mar muitas vezes nos nega seu fruto...
O verdadeiro autor não cabe só dentro de sí, ele não cabe só num quarto à luz de um abajour, tendo apenas como companheira uma velha mais fiel escrivaninha, uma cadeira gasta, e uma página em branco... Não! O autor é do mundo!!
O mundo espera por ele, quer ouví-lo, lê-lo, vê-lo, sentí-lo!
Não mate as palavras dentro de seu coração, pois que o verso é santo, forte e livre!
Não se abandona o barco antes do naufrágio...ainda sim, no fundo do mar, inquieto e silencioso, o barco dorme o sono dos anjos...
Tire férias do blog, mas não tire férias da escrita!
Pois que o poeta é um barco, que com o tempo aprendeu a navegar ora em rotas serenas ora turbulentas.
Dê tempo ao mar, deixe-o apaziguar, pois que o sol ainda há de brilhar sobre as velas...

Penélope jamais deixará de ser de Ulisses.*


"Valeu a pena?
Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu...
Mas nele é que espelhou o céu."

(Fernando Pessoa)

Marta disse...

Jorge, para nascer numa nova viagem podem antes ter de ser encerrados ciclos mas,mesmo nesse novo percurso, continuarás a ser emoções, pele, vida nas palavras... Por isso, por elas, por ti, por nós haverá sempre a necessidade de te ler... Que na nova viagem a necessidade de tudo ter não se torne impeditivo de atingir o sonho...

Beijo

gentil carioca disse...

Fico triste. Esse blog foi um dos primeiros que visitei, nem me lembro mais por quais caminhos. E em todas as vezes que passei por aqui, fiquei feliz, tanto pelas letras que li, quanto pelas músicas que ouvi.
Obrigada e boas novas viagens.
Se resolver voltar, visto que todas as estradas também permitem retornos, por favor me avise.
Abraços e felicidades.

Andy disse...

Encontrei o circum-viagem pouco tempo depois de iniciar o meu próprio blog que fará um ano de vida em breve...achei curioso o mundo dos blogues, sendo para mim, uma forma de nos fazermos ouvir e sobretudo como uma possibilidade de escrever o que se calhar não conseguimos traduzir e manifestar na rotina diária e louca que nos preenche até à mais ínfima célula, esgotando por vezes a necessidade vital de nos escutarmos...
iniciei assim a minha viagem lunar, sem pretensões de saber escrever...
apenas as emoções e as memórias guiam a tinta que cai sobre o papel...
O circum-viagem destacou-se como "não sendo apenas um blog", consegui ler o mar, o sal, as flores, o sonho, o Ser, a fragilidade...
acredito que haja códigos na junção das palavras que nos tocam, a escrita tem um véu subtil que esvoaça e nos transmite uma infinidade de sensações...
Acredito nos ciclos de vida...acredito sobretudo na necessidade de ir ao fundo para renascer,talvez no silêncio do profundo mar, haja uma paz que nos faça ouvir a forma, o ritmo e a linguagem do nosso próprio Ser...
e porque somos constelações de sonhos...
pele tatuada...
manto denso que se arrasta em nós e connosco com tudo o que colhemos da vida...aprendi a vir à tona sobretudo com maior tolerância para mim e para com os Outros.
Por tudo isto e a ti, Circum-viagem ficam estas últimas palavras, na certeza que a escrita, a vida, a música e as emoções, não se esgotam no teu mar...
fica a saudade de te ler...

Adoro este poema, por isso assim termino...

"corpo
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa

abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado

mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas

levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo"

Al Berto

Anónimo disse...

Circum-viajar é partir, navegar e regressar, para de novo partir... Tenho a certeza de que ainda nos voltaremos a cruzar na vastidão do mar!

Um beijinho e felicidades!

ACV disse...

Olá AMIGO!
Fico muito triste pelo que acabo de ler...
"Viajar" neste blog é uma forma de te ter...
Sinto que vou perder uma companhia...! ( Nada a que eu já não esteja habituada!!!).
Mas já sabes que podes desaparecer (nem que seja por dez anos!) que continuarás a ser...O Meu Grande AMIGO! Sabes que posso andar muito ocupada mas que isso nunca foi, nem será impedimento para "estár" com os Amigos.
Até sempre Jorginho...

LauraAlberto disse...

Eu congratulo-me de,provavelmente, ser um desses marinheiros de quem falas.
Voltamos a encontrar nos por aí.
Hasta siempre!

Longo Abraço