Na história da humanidade, e reconhecendo a fragilidade da sua condição face a desígnios superiores que, porque incompreendidos ou inacessíveis, sempre instigaram o medo e a veneração, o Homem procurou paliativos de diferente condição capazes de o ajudarem a reagir e a dotar de sentido a sua existência.
De todos, talvez o mais prolífico seja mesmo a Arte, genericamente entendida, e a música e a poesia, em particular.
Jamais fui um "expert" em matéria de conhecimento musical, mas não tenho receio em assumir uma paixão egoísta pela música que se resume àquilo que ela me pode dar. É verdade, e sem falsas justificações: sou um usurário, um agiota, um abutre de uma das mais belas formas de gritar o mundo, de pintar as coisas ou de chegar aos corações dos homens. E, porquê? Justamente porque, não dispondo do olhar analítico do especialista que tende a reduzir o fenómeno a pautas e a interpretações exemplar ou mediocremente executadas, sou capaz de sorver o que de melhor a música tem para oferecer: a convergência de sons que, pelo filtro do coração, se transformam em luz, em colorido, em imagens, em vivências, em sorrisos, em lágrimas... na própria condição humana.

Uma banda cujo percurso tenho acompanhado desde a sua génese é Muse, agrupamento britânico fundado em 1994 que, na esteira do que o panorama musical dos últimos 15 anos oferece, recolhe influências de quase todos os géneros musicais, ainda que com uma particularidade que os torna grandes: vertem em decanter próprio o néctar dos outros para, assim, construírem o seu próprio estilo que, como todas as bandas com "pedigree", vai, também ela, sofrendo mutações através dos tempos.
Recuso a ideia - até por ignorância - de traçar o percurso musical de Muse; não me sinto capaz de assumir as razões técnicas do maior ou menor brilho deste seu álbum relativamente àquele, desta sua faixa sobre aquela. Aquilo que posso garantir é que, porque a música e a vida caminham de mãos dadas, ouvir Bliss, Absolution ou Black Holes & Revelations consegue, ainda hoje, trazer para dentro de mim o calor seco da Galé, a brisa fresca da Praia Norte, a relva húmida de Coura ou mesmo a pacatez sonhada de um Alentejo com as pernas mergulhadas no mar... Simplesmente, porque... a música e os momentos da vida sorriem, primeiro; baixam os olhos timidamente, num rubor pudico que abraça o sol, no final da tarde ou no romper da manhã, depois; para logo se transformarem em pele viva que rasga os poros sob a forma líquida, aquiescendo ao desejo de ser apenas pele, sem adjectivos; e no enlace sensorial, a música e a vida (con)fundem-se, tornando-se um só corpo e alma: a do Homem; a daquele que transforma e se transforma na e pela música, encontrando, assim, forças para dizer aos deuses que estavam enganados quando desenharam a bola de cristal, esse instrumento de mal que define vontades, desejos, destinos... sem que fôssemos ouvidos.
Obrigado, música! Obrigado, Muse!
A última faixa do álbum de 2009, "Resistance": Exogenesis Symphony Part 3. Arrepiante (sobretudo a partir dos 2':00 minutos)!