Domingo, 26 de Setembro de 2010

viagens de luz e sombra

caros amigos,
estas circum-viagens chegaram ao fim do seu ciclo, mas, para honrar a memória que vive em cada onda deste mar, resolvi deixar a janela do tombadilho aberta. daí se avista o mar e o convés, dependendo do lado onde fixemos os pés. os meus? estão um de cada lado (embora a cabeça jamais tenha esquecido o mar e a sua viagem...)
para aqueles que tenham curiosidade ou pretendam espreitar a nova aventura marítima, aqui está o primo destas circum-viagens: viagens de luz e sombra (http://www.viagensdeluzesombra.blogspot.com
a todos um abraço!

Terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

Tombam, assim, páginas de tinta que jamais serão reescritas, mas que, por entre manhãs de bruma, continuarão a sorrir, timidamente, porque nelas habitou a verdade.


Rammstein, stirb nicht vor mir

"I don't know who he is
In my dreams he does exist
His passion is a kiss
And I can not resist

I wait here
Don't die before I do
I wait here
Don't die before I do

I don't know who you are
I know that you exist
Don't die
Sometimes love seems so far
I wait here
Your love I can't dismiss
I wait here"

Domingo, 29 de Novembro de 2009

Carpe Diem II

Vive todo o tempo
Que o tempo te concede
Aproximando o lamento da finitude
À exuberância da eternidade.

Preenche o tempo
Que a todo o tempo precede
Com o néctar do triunfo
Do sonho sobre a realidade.

Em uniformes de saudade
As recordações hão-de vestir
Os ecos distantes
Que os sentidos hão-de permitir.

Sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

Despedida

Cumpre-se este mês dois anos que este blogue deu início às minhas viagens plurais. Tinha acabado de publicar o meu primeiro livro de poesia e senti que era importante, num momento em que a voz poética se alçava para lá das páginas e da tinta que lhe contornava o rosto, ir dando a conhecer alguns dos planos, projectos e criações que fosse conseguindo.
A viagem foi uma experiência inesquecícel. A palavra alimenta a palavra que, por sua vez, sacia a sede de vozes secas e sedentas de canto, de verso, de poesia. Foi neste jogo verbal, mas sobretudo emocional, que eu, Jorges (e o plural é intencional), me fui desnudando, sempre a coberto do filtro que o verbo nos oferece... mas sempre exposto, também, à minha maior fraqueza: as emoções, o sangue vivo escorrendo numa pele que, na maior parte das vezes, tolda a razão e conduz ao mais recôndito esconso da fragilidade humana, da minha fragilidade.
Nesta viagem, com mar e sem ele, fui Jasão e Ulisses, domando as ondas e rasgando marés; por detrás delas, acabei sendo, também, o objecto da fúria divina que me castigou pela ousadia de querer tocar o que esteve sempre vedado aos sonhos humanos.
Cruzei-me com embarcações, com marinheiros e marés, com gente que passava e gente que ficava, toquei vozes, mãos, rostos e emoções, umas conhecidas, outras que me foram desveladas pela sede incessante de viajar para ser.
A viagem encerra um ciclo; há que voltar ao início para poder voltar a viajar, para poder voltar a nascer, para ser capaz de voltar a ser. O desejo de o conseguir corre, líquido, nas minhas veias... O medo de falhar não desapareceu, todavia... Mas, porque para renascer é preciso morrer, entrego este blogue à memória e ao carinho dos que por cá passaram, dos que por cá circum-navegaram, circum-viajaram.
Um abraço a todos eles com o meu imenso obrigado!

Jorge
Data do fecho do blogue: 03 de Dezembro de 2009

Termino como comecei:
"Viajo para escrever
Escrevo para recordar
Recordo para sonhar
Sonho para não deixar de viver..."



Pink Floyd, The Final Cut

Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

Sons de Outono

Queria ser capaz de perceber por que mergulhaste na concha do isolamento, naquela madrugada fria de Outono, que anunciava, no cântico sensorial, a queda das folhas dos plátanos nas minhas mãos.
Por que não sou capaz de olhar para o alto, para as copas das árvores, e perceber como, ano após ano, a pele encarquilha no nervo frágil para mirrar e morrer, tombando na solidão de uma calçada que tão seguro de mim calquei quando caminhava a teu lado?…
Por que não fui capaz de olhar o papel onde reescreveste os afectos, as coordenadas da viagem que a calçada empreende sobre nós ou a incapacidade de partir que empreendemos sobre ela?...
Queria acreditar que vestiste o oráculo do silêncio porque não me quiseste ver morrer… porque quiseste não morrer… E, todavia, agarrando a noite no teu novelo fechado, levas contigo o dia, também, sem saberes que permaneço do lado de fora, imóvel, hirto, sem abrigo, mais morto do que receaste que algum dia pudesse ficar…
E tu? Por mais que o negues, apenas um corpo vergado sobre os músculos, acreditando que a viagem há-de voltar a percorrer-te… mesmo que só…

Domingo, 22 de Novembro de 2009

arca de noé

o grito do sol
espreita
por detrás dos topes do mundo;
por que é que
o silêncio negro
de uma chuva diluviana
persiste
em alagar
as galerias do ser?

Sábado, 21 de Novembro de 2009

Foz da Alma

Esposende, foz do rio Cávado/2008

Olha de frente a linha do horizonte, resiste a fechar os olhos ou a deixá-los embaciar pela cortina salgada que tantas vezes se descerra entre a mão e a pedra-de-toque. E, se um dia voltares a distinguir a linha difusa de uma nave que viaja numa rota que não aquela para que segues, deixa-a, pelo menos, partilhar contigo as águas em que navegas... Há algo que vos há-de unir: serdes feitos de mar com sede de navegar.


Placebo, Sleeping with Ghosts


"The sea's evaporated
Though it comes as no surprise
These clouds we're seeing
They're explosions in the sky
It seems it's written
But we can't read between the line
[…]
Hush
It's okay
Dry your eyes
Dry your eyes
Soulmate dry your eyes
Dry your eyes
Soulmate dry your eyes
Cause soulmates never die [...]"

Quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

"o mesmo que te busca há-de afastar-se,
e se ensinaste a amar, se amaste alguém,
acabará amando o que amares,
odiando o que odiares
e depois odiando e amando-se a si mesmo
por ter deixado de ser ele próprio por culpa tua;
nada é teu, tudo é de tudo o que passa."

Jordi Virallonga

Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

O Som e o Silêncio

Um sussurro sem boca penetra o ventre morno da brisa que te aquece a intimidade. Veste luz; anuncia calor; clama verdade, na sua voz silente que ecoa nos corredores vazios da saudade e que os teus ouvidos, cansados da espera, deixaram de saber escutar.
Segurando o mapa em que nos assinalámos, o som tímido cresceu, vencendo as frestas calafetadas do teu silêncio, resistindo às arestas graníticas em que te escondes, transgredindo a lei da solidão que decretaste. E tudo, porque é mais leve que o ar e mais denso que a memória esquecida de um coração-verdade.
Pressentiste o eco breve que dançava a teu lado, mas os lençóis permaneciam esticados, perfeitos, sem vincos, orgulhosamente frios e brancos, desenhando no teu corpo as linhas da insónia e pintando a guache as cores do Inverno ainda indiferentes ao apelo do sol.
Sonhei-te num abraço vozeado e, no murmúrio crescente das palavras, os teus lábios desabrocharam, por fim, em papoilas de um vermelho-sorriso, de um vermelho-vida, de um vermelho indiferente ao frio das bocas abertas, à neve dos braços caídos, ao gelo das mãos amarradas por correntes de sangue negro. O arrepio que deixaste percorrer a estrada do teu corpo ermo e mal iluminado já não é o da solidão da noite lívida sem luar; é a centelha que não deixou de arder no coração do poema que compomos a duas mãos. Ainda incompleto… ainda imperfeito… mas já palavras-verdade que luzem mesmo para lá do teu quarto.

30 de Dezembro de 2007


Morrissey, Dear God, Please Help Me

Domingo, 15 de Novembro de 2009

Rua Crepuscular

Há-de chegar o crepúsculo
nas linhas macilentas de um velho
com o olhar marejado de recordações
e o corpo dobrado pela esperança.

Aqui e além
um rafeiro espreguiça o tédio,
um gato geme à porta fechada
– este mundo de silêncios espaçados
cavalga no lusco-fusco
da noite que ainda não é,
do dia que já foi,
enquanto o tempo escorre, vagaroso,
pela clepsidra de vidro estalado.

Nunca lhes ouvi o nome ou a direcção
– que importa
se a rua
é apenas estilhaço de cristal
bocejando em cadência lenta
pelas galerias subterrâneas
do eco existencial?
(ainda assim, sabes que esperei à tua porta?)

Sem aviso,
o luar pousa-me nas mãos
lambendo o linho
que esconde as linhas,
e vazando os olhos de um cofre sem chave
que guarda aquilo a que, em tempos,
soube chamar alma.

Hoje,
é apenas ponto de passagem,
parede de sombras vigilantes
e rosto com pétalas de indiferença
– louco, por que haveriam de reparar em ti?... –,
onde os cães uivam à lua
e os gatos me confundem com a solidão.



Rodrigo Leão, Cathy

Quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

celebração

enxaguo os olhos
com a tinta do poema
que celebra
o arbusto e o lenhador
a nave e a tempestade
o sorriso e o esgar

no festim silencioso
as pálpebras inclinam-se
sobre o olhar-por-descrever



The Lights Hold so many Colors, Rodrigo Leão

Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

do tempo

eu sou aquele
que olha os contornos das letras
que desnudam os nomes
do que fui
e do que sou

porque tudo é trânsito passagem corrente
cobiço o cálice do analfabeto
e a luz do cego;
assim não veja a escrita do que serei.

Carpe Diem, Rodrigo Leão

"- Primeiro que eu compreendesse o meu corpo!... Sempre tive muito cuidado com ele, porque sempre senti que fazia parte de mim. Nunca o desprezei e nunca o retirei da minha vida... Hoje tenho a sensação de que o cuidei como quem cuida duma casa vazia, só a pensar que é um lugar de calor e de carinho à espera de quem aí possa morar. Eu acho que um dia as pessoas ainda vão descobrir o que podem fazer com o corpo porque os sentimentos, quando estiverem purificados, vão ajudar-nos muito. Julgo que vamos viver melhor quando nos ligarmos mais pelos sentimentos do que pelos saberes. Tenho a certeza de que nunca usaria o meu corpo com leviandade mas, como a palavra, o corpo é um lugar de risco... A gente nem sempre encontra quem mereça as nossas palavras, não admira que custe a encontrar quem mereça o nosso corpo... Mas julgo que, antes de descobrirmos o corpo, temos outras coisas para descobrir.
- O quê, tia Suzana?
- Julgo que o mais importante são as palavras. Quando se vive a solidão, sabe-se que, por causa duma palavra verdadeira, caem muitas vezes as muralhas que levantamos à volta das nossas almas. Uma palavra verdadeira pode ser um milagre: é a solidão derrotada."

in Tia Suzana, Meu Amor, de António Alçada Baptista

Domingo, 8 de Novembro de 2009

Languidez

fecho as pálpebras roxas,
quase pretas,
que poisam sobre duas violetas,
asas leves cansadas de voar.

na minha boca beijos mudos
e nas minhas mãos
pálidos veludos
riscando gestos de sonho pelo ar.


05 de Junho de 2009


Sábado, 7 de Novembro de 2009

A que vens,solidão,com teu relógio
de ponteiros de visgo, de bater de feltro?
Ombro nenhum ao meu ombro encostado,
a que vens, ó camarada solidão?

Companheira, amiga, até amante,
até ausente, ó solidão, te amei,
como se ama o frio até o frio dar
a chama que tu dás, ó solidão!

A que vens,enfermeira? Não sabes que estou morto,
que se digo o meu sim ou o meu não
é só para que os outros me julguem mais um outro,
é só para que um morto não tire o sono aos outros?

A que vens, solidão? Vai antes possuir
os que amam sem esperança e sem saber esperam,
dá-lhes o teu conforto, encosta-lhes ao ombro
o teu ombro nenhum, ó solidão!

Alexandre O'Neill

Sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Enigma

O Enigma do Desejo, Salvador Dali

Por que choras
antes que as palavras
ardam nos lábios
sem nunca chegarem à boca?

Por que silencias a voz
Depois de seres o eco
repetindo o tempo
nos ponteiros do corpo?

Por que desprendes as pétalas
do verso cansado
pela mão que anoiteceu
no contacto com estrelas sem luz?

Por que permites que a existência se quebre
antes mesmo de acontecer?...

Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009


Suede, Saturday Night

(in)verso

tantas vezes somos apenas
gritos escondidos no aparo
murmúrios estancados na pena
confissões alagadas na tinta
ou silêncios esquecidos no dizer

entre a lágrima e o sorriso
vives
verso-por-escrever

entre a voz e a palavra
empalideces
desejo de permanecer

The Theater of the Body,
Mith and Tragedy, Head VI, 1949

Sábado, 31 de Outubro de 2009

Teia

Pousou sobre os pés o rosto de cinza com que vinha sorrindo, numa harmonia falsa, às exigências da (des)humanidade. Sabia bem que aquela nudez fulgente amotinava o ser, mas ainda sabia melhor que era ela quem exibia, sob a língua entaramelada, o comprimido da autenticidade. Ele, que tantas vezes fora a aranha frágil que se enreda nas teias que ela própria urde com as patas do coração, assim esquecendo como é a mão que escorre pelo rosto…
As vozes, o gargalhar, o estrépito orgástico eram, para si, apenas sementes de uma memória que, silenciosa, causticava as entranhas da ilusão. Até porque o sal se encostara à pele que marca o início do ritual nocturno. Ainda assim, não devia recuar… não podia recuar…
Já sem cinza, e com as lágrimas secas no viés do espelho lunar, ajoelhou-se no altar bordejado de madressilva e alfazema, inspirou o hálito quente do bosque que, circunviajando nas suas veias, acendia esconsos esquecidos; ergueu os olhos ao voo rasante do corvo que jamais deixou de gritar aos demais animais o caminho da redenção e, de braços estendidos e mãos abertas ao vento, deixou escorrer sobre si a água que não sabe esquecer o mar.
No grito surdo do bosque, reconquistara o silêncio do seu corpo…



http://www.youtube.com/watch?v=0uD17tNip1s
(The Cure, Lullaby)

One More Time, The Cure

I'd love to touch the sky tonight
I'd love to touch the sky
So take me in your arms
And lift me like a child
And hold me up so high
And never let me go
Take me
Take me in your arms tonight

Hold me
Hold me up so high
And never let me down
Hold me
Hold me up so high
To touch the sky
Just one more time

Take me in your arms tonight
Take me in your arms
Just one more time
Just one more time
Just one more time



The Cure, One More Time

Domingo, 25 de Outubro de 2009

quase-poema

Olho o poema
esquecido sobre as linhas da tua mão.
Comecei-o há tanto tempo… lembras-te?...

Agarraste-o com o vigor de quem conhece o verso
e aí o deixaste permanecer,
mesmo sabendo que a tinta escorria
ora ardendo nos dedos,
ora devagar
como quem espera o trem numa estação sem trilhos…

Dobro-me para ti
e recolho-o entre os dedos cansados.

A folha seca segreda-me que a voz dos homens
só se perde quando a tinta das veias estancar no coração
ou uma lágrima furtiva cair sobre a estrofe inacabada
abanando a barca que nela navega,
chão de madeira sem mar,
rostos esquecidos dos sorrisos daqueles dias.

Ainda assim,
no silêncio da voz
sei que voltarei a escrever:
só assim se extingue a bruma branca da morte.
E o poema pode voltar a saber descansar.

Sábado, 24 de Outubro de 2009


Placebo, Twenty Years

"That's the end - and that's the start of it
That's the whole - and that's the part of it
That's the hide - and that's the heart of it
That's the long - and that's the short of it
That's the best - and that's the test in it
That's the doubt - doubt, not trust in it
That's the sight - and that's the sound of it
That's the gift - and that's the trick in it

You're the truth, not I, you're the truth, not I
You're the truth, not I, you're the truth, not I
You're the truth, not I, you're the truth, not I
You're the truth, not I, You're the truth, not I"

Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Muse, a música e eu

Na história da humanidade, e reconhecendo a fragilidade da sua condição face a desígnios superiores que, porque incompreendidos ou inacessíveis, sempre instigaram o medo e a veneração, o Homem procurou paliativos de diferente condição capazes de o ajudarem a reagir e a dotar de sentido a sua existência.
De todos, talvez o mais prolífico seja mesmo a Arte, genericamente entendida, e a música e a poesia, em particular.
Jamais fui um "expert" em matéria de conhecimento musical, mas não tenho receio em assumir uma paixão egoísta pela música que se resume àquilo que ela me pode dar. É verdade, e sem falsas justificações: sou um usurário, um agiota, um abutre de uma das mais belas formas de gritar o mundo, de pintar as coisas ou de chegar aos corações dos homens. E, porquê? Justamente porque, não dispondo do olhar analítico do especialista que tende a reduzir o fenómeno a pautas e a interpretações exemplar ou mediocremente executadas, sou capaz de sorver o que de melhor a música tem para oferecer: a convergência de sons que, pelo filtro do coração, se transformam em luz, em colorido, em imagens, em vivências, em sorrisos, em lágrimas... na própria condição humana.

Uma banda cujo percurso tenho acompanhado desde a sua génese é Muse, agrupamento britânico fundado em 1994 que, na esteira do que o panorama musical dos últimos 15 anos oferece, recolhe influências de quase todos os géneros musicais, ainda que com uma particularidade que os torna grandes: vertem em decanter próprio o néctar dos outros para, assim, construírem o seu próprio estilo que, como todas as bandas com "pedigree", vai, também ela, sofrendo mutações através dos tempos.
Recuso a ideia - até por ignorância - de traçar o percurso musical de Muse; não me sinto capaz de assumir as razões técnicas do maior ou menor brilho deste seu álbum relativamente àquele, desta sua faixa sobre aquela. Aquilo que posso garantir é que, porque a música e a vida caminham de mãos dadas, ouvir Bliss, Absolution ou Black Holes & Revelations consegue, ainda hoje, trazer para dentro de mim o calor seco da Galé, a brisa fresca da Praia Norte, a relva húmida de Coura ou mesmo a pacatez sonhada de um Alentejo com as pernas mergulhadas no mar... Simplesmente, porque... a música e os momentos da vida sorriem, primeiro; baixam os olhos timidamente, num rubor pudico que abraça o sol, no final da tarde ou no romper da manhã, depois; para logo se transformarem em pele viva que rasga os poros sob a forma líquida, aquiescendo ao desejo de ser apenas pele, sem adjectivos; e no enlace sensorial, a música e a vida (con)fundem-se, tornando-se um só corpo e alma: a do Homem; a daquele que transforma e se transforma na e pela música, encontrando, assim, forças para dizer aos deuses que estavam enganados quando desenharam a bola de cristal, esse instrumento de mal que define vontades, desejos, destinos... sem que fôssemos ouvidos.
Obrigado, música! Obrigado, Muse!





A última faixa do álbum de 2009, "Resistance": Exogenesis Symphony Part 3. Arrepiante (sobretudo a partir dos 2':00 minutos)!

Domingo, 18 de Outubro de 2009


Morrissey, I Have Forgiven Jesus

Acorrentados - resultado

Para além de mim, foram três os bloguers/amigos que aderiram ao repto lançado no dia 5 de Outubro nesta rubrica "Acorrentados". Aqui está o resultado:


Laura Alberto – blog: (Im)Possibilidade
"Toma, é apenas um coração segura-o na tua mão e quando chegar o dia, abre a tua mão e deixa que o Sol o aqueça..."
Relatos da Revolução Cubana, de Ernesto Che Guevara.




Andy – blog: Lua
Pergunta-me se tenho conhecimento de alguma razão para estar feliz."
Comer Orar Amar, de Elizabeth Gilbert.




Toñi – blog: Cosas de la Vida
“Soy de Argentina, el país de Dios. Allí donde el sol es del tamaño de una naranja gigante y el cielo es tan inmenso como el reflejo del reino celestial…”
A la Sombra del Ombú, de Santa Montefiore.



Jorge Pimenta – blog: Circum-viagem
"Fui-me embora inesperadamente, sem dizer adeus. Sabias e sentias certamente que não podia fazer outra coisa, tinha que ser assim."
As Velas Ardem até ao Fim, de Sándor Márai.

Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009


Placebo, Blind

Deixaste esquecida a palavra indecisa num qualquer banco de jardim
- julguei-a eternamente suspensa numa boca sem verbo e conjugação -,
ali, pousada, apodrecendo, junto de bugalhos e bolotas
que até os roedores desprezam.
Dobrei-me para a recolher, meio distraído no silêncio,
mas as mãos,
vazias de ti,
tornam-se demasiado estreitas para aquele grito mudo
que sabe aglutinar o sentido do mundo.
Recuo com medo dos teus passos
das páginas errantes de desejo
e escondo-me na contabilidade do tempo.
Na contracapa do mundo,
o homem esquece-se do seu nome...
perde a sua porta...
há apenas a rua que desagua no lamento inocente
também o rosto... o rosto, esse, levado pelo mapa dos versos.
Ah, quem me dera a justa medida do animal
que arrasta garras por traves de madeira insensível,
matéria que não sabe gemer
(nem diante de cutiladas de sangue)...
Quem me dera...

assim...


e é assim o silêncio,
água deslizando pela parede como a humidade bafienta que desenha uma imagem fixa com unhas de verniz de sangue que jamais se consegue tocar...
e é assim a ausência,
lágrima escorrendo da íris cansada de olhar o gato macilento que passa as horas mortas à espera da morte do tempo…
e é assim a indiferença,
manto cobrindo o corpo sem pele suspirando pelo beijo que arranque o lábio à boca…
e é assim a presença,
linha invisível que desce pelo corpo e arrasta o gemido em eco de céus e estrelas que te esqueceste de ver, que desaprendeste de ler, que quiseste esquecer, como se o peso do mundo tivesse pousado sobre os teus ombros frágeis…
e é assim o amanhecer…
apenas o cansaço que repousa sobre os ossos de um corpo que procura um caminho sem o conhecer…

Quinta-feira, 15 de Outubro de 2009


Muse, Resistance